Depois de um dia longo viajando de trem cheguei em Frankfurt (Oder). Desembarquei do trem e fiquei imaginando quantas vezes o meu pai deve ter passado por esta estação. Eu estava na cidade onde o meu pai estudou e se divertiu muito quando criança. Sentia as histórias que tanto escutei se materializar, fique emocionado.
Para vocês que estão lendo talvez seja difícil imaginar o que este momento significa para mim, eu mesmo não consigo explicar bem. Acredito que seja o fato de ter escutado muitas vezes as histórias com tantos detalhes, numa terra distante para mim quando criança e a admiração que sempre tive pelo meu pai, fatos que devem ter alimentado o desejo de ver, pisar e viver um pouco este cenário.
Parei de sonhar, peguei a bike e saí da estação. Fora da estação tirei umas fotos e comecei a analisar o mapa da cidade para localizar a direção do hotel que eu tinha reservado. Neste tempo o céu começou a ficar preto e senti uns pingos de chuva. Não acreditei que iria chover e me mandei atrás do hotel. A estação fica numa região mais alta, foi só deixar a bike correr morro abaixo, só alegria.... Caramba! Pensei: a alegria durou muito pouco. As nuvens pretas decidiram cair, veio um toró de chuva, dos pinguinhos de chuva foi direto para um dilúvio. Procurei um lugar para me abrigar, mas até achar eu já estava totalmente encharcado. Na marquise onde me abriguei tinha um casal de alemães. Eles vendo o figura, eu, ficaram curiosos e começaram a conversar. -Da onde você veio? Vim do Brasil. -O que! Não acredito! O que te trouxe para cá? Expliquei por alto e eles ficaram maravilhados. Eu aproveitei para me informar de um local para comprar um chip de telefone. Neste meio tempo a chuva acabou passando tão rápido como vaio. Me despedi e fui comprar o chip de telefone (Dica para viajantes: compre um chip só de dados. Nos dias de hoje podemos fazer tudo pela internet, não é necessário ter linha de voz. Paguei EU$10,00 por 7 dias de internet ilimitada).

Frankfurt (Oder) depois da chuva.
O hotel que escolhi ficava no lado polonês, as tarifas são a metade comparadas com o lado alemão. Fique apreensivo quanto ao hotel, o barato pode sair caro, mas não foi o caso, o hotel era até muito bom para um cicloturista. Larguei as coisas no hotel e fui dar uma volta para aproveitar o sol que saiu depois da chuva. Acabou dando um final de dia espetacular.

Vista da Polônia para a Alemanha, separadas pelo rio Oder.
No outro dia cedo fui comprar a bomba para encher pneu e o cadeado. Procurei pela internet uma loja de bike no lada alemão. Quando cheguei nela um alemão típico me atendeu, cara fechada, bem sério, de poucas palavras. Escolhi o que precisava e disse que precisava de um parafuso (perdi na montagem da bike). Explique o tipo de parafuso e fui buscar a bicicleta para mostrar melhor. Quando o alemão viu a bicicleta ficou curioso. -Nuca vi uma bicicleta como essa (a minha Cannondale Scalpel de 2007). Da onde você veio? A essa altura eu já tinha um resumo da história decorada. Contei para ele e a cara do alemão mudou de bem séria, para séria. Parece pouco, mas para os padrões brasileiros equivale a um sujeito irradiante. Na realidade sempre fui muito bem atendido e recebido pelos alemães, só precisamos entender que eles não se dão aos floreios e frescuras que nós estamos acostumados, eles são diretos, francos e verdadeiros. A nossa cultura nem sempre consegue lidar com tantas doses de papo reto.
Este problema resolvido, fui procurar a escola onde o meu pai estudou. Não foi difícil achar o Friedrichs Gymnasium, cheguei bem no horário do recreio, a criançada correndo e uma gritaria típica de crianças alegres. Parei e fiquei imaginando se fosse 80 anos atrás talvez uma destas crianças seria o meu pai. Fique tão empolgado que já fui entrando, tirando fotos e quando dei conta de mim já estava lá no meio do pátio da escola. Assim que passou a empolgação percebi um adulto que parecia ser uma cuidadora. Achei melhor perguntar se podia tirar fotos e ficar ali. Ela disse que sim, mas pediu que eu esperasse o término do recreio para tirar fotos.

A foto que eu não poderia ter tirado.

O meu veículo e eu na porta de entrado da escola.
Algumas palavras do meu pai para dar uma ideia dos tempos dele nesta escola:
“Escolhi um ginásio humanístico, com forte base de latim e grego já nos primeiros anos, pois sempre tive paixão por conhecer outras culturas. Apesar de detestar as aulas de latim e grego, gostava muito dos professores; bem, de quase todos. A exceção era um professor de latim. Nós detestávamos o homem. Tanto é que lhe chamávamos por um apelido nada agradável: “cagalhão”. Este apelido remonta a uma das inúmeras peças que nós, alunos do Friedrichs Gymnasium, pregamos no homem. Foi o seguinte: ele havia ido ao banheiro dos homens que ficava no porão do ginásio. Não havia mais ninguém ali e alguns alunos entraram e trancaram o professor dentro do banheiro. Demorou muito até que alguém fosse libertá-lo. Mas o fato é que o apelido pegou e ele passou a ser conhecido, nas rodas estudantis, como o “cagalhão”. O homem era insuportável, pois tinha prazer em reiterar que nós, estudantes, éramos completamente ignorantes e ele é que sabia tudo”.
É, as crianças são iguais em qualquer lugar e tempos.
Acabei gastando a manhã e o plano inicial era ter visitado a escola, a casa onde ele passou a maior parte da infância e ir até a cidade onde ele nasceu. Vi que ficaria tudo muito corrido e decidi ficar mais um dia para fazer tudo com calma.
Para um melhor entendimento, no mapa abaixo, este primeiro dia transcorreu nos locais 1 e 2.

Vista detalhada da região onde o meu pai morou.
1- A cidade onde cheguei de trem e onde o meu pai estudou, Frankfurt am der Oder.
3- A cidade onde ele nasceu, Wiesenau.
4- Morou dos 2 aos 5 anos, Riessen.
5- Dos 5 aos 7, Beeskow.
2- Dos 7 até a guerra, 16 anos, Maczkow.
No início da tarde fui procurar a casa em Maczkwo(2). O caminho já estava planejado e carregado no GPS, era só seguir e curtir o caminho. Lá pela metade passei por um rio, parei para apreciar e acabou me ocorrendo que este rio poderia ser o rio Eilang, o rio que passa nos fundos da casa do meu pai. Segui o rio no mapa do GPS e confirmei, realmente era o rio. O meu pai adorava este rio, tomar banho no rio era a brincadeira predileta de varão. O meu avô chegou a fez um canto em homenagem ao rio, a tradução é algo parecido com isso:
CANTO DO EILANG:
Do alto olho sobre montanhas e vale,
Soam alegres e suaves canções da terra natal,
Vale do Eilang, tão maravilhoso, serei sempre fiel a você.
Quando na primavera novas flores e ervas florescem nas encostas,
Quando os pássaros retornam novamente aos campos e matas,
Vale do Eilang, então você é lindo, serei sempre fiel a você.
Quando eu seguir para longe, caminhando pelo mundo afora,
Sob a luz das estrelas pensarei na terra natal,
Vale do Eilang, tão maravilhoso, serei sempre fiel a você.
Quando volto à noite, com passos cansados,
Cantando tuas canções juvenis de dias felizes do passado,
Vale do Eilang tão maravilhoso, quero aqui em paz descansar.
Dá para ter uma ideia de quanto este rio significava para os Lilie’s. Eu já sentia o ambiente e ficava cada vez mais ansioso em chegar. Mais alguns quilômetros cheguei no acesso à vila.
Rodovia de acesso.
Nos últimos quilômetros fui filmando e relatando a minha emoção, já sabia que ia cruzar o rio Eilang e na sequência viria a casa. Vinha torcendo para ter alguém na casa e poder entrar nela. Bem próximo senti uma descida e logo vi uma ponte. Tinha que ser o Rio Eilang, mas a descida era muito suave e pequena. O tão enaltecido vale do Eilang era quase imperceptível, mas tinha que ser ali. Passei a ponte e já vi a casa. Que legal! Tem duas senhoras trabalhando no jardim. Parei e fui direto falar com elas, mas não conseguimos nos entender, elas só falavam polonês e eu não entendia nada. Tentei mímica, mas nada funcionou. Fiquei insistindo e elas perceberam que eu não ia desistir. Uma delas saiu pela rua e voltou com uma menina, a Claudia, que falava alemão. Contei que o meu pai morou nesta casa e que eu gostaria de visitá-la. Ela traduziu para as senhoras, mas a resposta foi que não poderiam deixar eu entrar, elas só estavam trabalhando na casa. Insisti e uma delas ligou para alguém que autorizou a minha entrada. Oba! Oba! Consegui!

A vista da casa assim que cruzei a ponte.
A casa está sendo reforma para se transformar numa igreja. Achei interessante, ela será preservada por muito tempo, acredito. Não sei se todas as igrejas polonesas são assim, mas vi várias na região neste mesmo conceito; a igreja, um parquinho para as crianças e uma área de convivência, bem interessante.
Acredito que o meu pai iria gostar de ver a casa em bom estado. Em 1999 ele visitou a casa e o estado dela não era muito bom, abandonada. Ele ficou triste em ver a casa dos seus bons tempos de infância naquele estado.

A sala que virou igreja.

Duas fotos que se complementam para dar uma ideia da posição da casa em relação ao rio.
Algumas palavras do meu pai sobre o rio Eilang:
“Com o calor dos meses de junho, julho e agosto nosso principal palco de atividades era o rio Eilang, um afluente do Oder. Tinha minha própria canoa e navegava por ele. Às vezes para pescar, outras somente para passear. Gostava muito disso. Passava horas e horas a vagar pelo rio.
Tinha minha turma de amigos e, juntos, passávamos horas inventando novas brincadeiras. Uma das que mais gostávamos era a de juntar montes de capim sobre a água do rio e jogar lama por cima. Conseguíamos transformar aquilo em uma estrutura muito forte, formando uma pequena ilha, sobre a qual pulávamos...”
Agora entendi o gosto do meu pai por rios. A casa dele em Rio Negrinho fica numa situação bem idêntica. Tínhamos uma canoa onde eu também peguei o gosto pela água, remava para cima e para baixo no rio negrinho e inventava as minhas brincadeiras.
Bom, eu fique feliz por ter conseguido entrar na casa, por ter andado pela vila onde o meu pai passou os melhores tempos da sua infância, adolescência e o terror da guerra ainda estava lá no futuro desconhecido.
A vontade era ficar ali por mais tempo, talvez um outro dia eu volte com outros planos, mas para o que eu tinha me proposto a missão estava cumprida. Peguei a bicicleta e inicie a volta para Frankfurt pela estrada velha. No caminho passei pelo local onde havia uma ponte que ligava facilmente Matschdorf com Wiesenau, onde os avôs do meu pai moravam e também é o local onde o meu pai nasceu, o meu próximo destino amanhã (acho que não expliquei que Matschdorf era o nome alemão para a vila e Maczkow é o nome atual).
Neste caminho cruzei mais uma vez o rio Eilang, agora já bem próximo da foz com o rio Oder, também passei por várias igrejas, uma delas estava toda enfeitada, até enfeites ao longo da rodovia. Mais à frente encontrei uma ciclista que provavelmente fazia parte desta festa, ela toda charmosa parada no lado da via, fui obrigado parar e tirar uma foto. Veja a foto dela fazendo pose.
A ciclista charmosa.
Em mais alguns quilômetros cheguei no hotel, fiz uma faxina nas minhas tralhas e preparei tudo para prosseguir a viagem no outro dia.




